Sociedade Alternativa! Relato sobre a mais nova conquista no Pico do Baiano-MG!

Nova conquista no Pico do Baiano, Catas Altas, MG. A Montanha Mágica!

por: Gustavo Pietsch Vianna

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Ah, Pico do Baiano, que Montanha incrível… Há 10 anos quando ouvi falar desse lugar sabia intuitivamente que gostaria de lá. Cenas imaginárias de homens e montanhas em batalhas amistosas, amigáveis e construtivas dominaram meu imaginário e não podia esperar para conhecê-la.

Situa-se no município de Catas Altas, MG, na face leste da Serra do Caraça, importante conjunto de montanhas de origem geológica polêmica com inúmeros picos acima de 2000m de altitude. O acesso é feito atravessando área da companhia VALE e a montanha está situada em uma RPPN da mesma empresa. A Reserva Particular do Patrimônio Natural Horto Alegria protege importantes ecossistemas do sopé do Caraça. Florestas e campos rupestres com fauna e flora riquíssimos, pouco estudados e ameaçados.

O ponta pé inicial as grandes escaladas do Baiano, se dá em 1993 quando um grupo de escaladores, Antonio C. Magalhães, Fábio Cota, Emerson Azeredo, Júlio C. Cardoso e Fabiano Fernandes, estes aficionados em escala está montanha , conseguem abrir a trilha de acesso até a base e  é esta mesma trilha que até hoje espanta a maioria dos escaladores de lá por se tratar de uma caminhada de nível pesado que dura aproximadamente de 3 a 4 horas .

Em 1994 finalmente é aberta a primeira via de escalada, a clássica “Odisséia ao Crepúsculo”. Quando os escaladores chegaram ao cume tiveram uma surpresa: uma flâmula do extinto Clube Excursionista de Belo Horizonte e uma garrafa de refrigerante denunciavam a presença de outros montanhistas naquele cume magnífico. Soubemos depois que estes bravos montanhistas haviam chegado lá caminhando a partir da sede da RPPN Serra do Caraça. Uma caminhada de dois dias, muito bonita, que passa pelo Pico do Sol (2070m), atravessa a cabeceira do córrego Quebra Ossos e sobe a face oeste do Pico do Baiano (2016m).

Esta escalada marcou o inicio das grandes conquistas em Minas Gerais .

Desde então outras oito vias foram abertas na face leste dessa montanha. Possuem estilos variados e dão ao pico um lugar de destaque no montanhismo brasileiro. Longas vias, visual incrível e uma aproximação pesada tornam o Pico do Baiano verdadeira escola de montanhismo pros mais ousados e que querem testar seus limites.

Eu e meu amigo e parceiro de escaladas, Marcus Vinicius (Rufino) começamos a escalar e abrir diferentes rotas naquelas bandas. Em 2007 abrimos até então o único big wall dessa parede A via “Metamorfose Ambulante” localizada na face norte da montanha, possui uma aproximação dura e uma escalada extremamente complexa que exige de dois a três dias para repetição.

Em julho desse ano, 2011, voltamos à parede, prontos pra ficar uma semana, se necessário, e assim abrir uma nova via. Escolhemos uma linha de agarras ao lado da via “Obra do Acaso”. Essa via é a mais freqüentada do local, pois é toda equipada com proteções fixas, transmite certa sensação de segurança valiosa naquelas alturas.  É a via mais indicada para o rapel da parede, pois segue uma linha reta até o cume, sem grandes diagonais e possui todas as paradas duplas.

A linha escolhida por nós deveria oferecer características semelhantes e desde o inicio dos trabalhos sabíamos que também estava pra nascer uma via clássica com exposição moderada e rapel descomplicado. Queríamos uma via atraente, segura, mas que não perdesse a sensação de desafio comum às vias de escalada caracenses.

Para nossa aproximação até a base da montanha contamos com a preciosa ajuda do nosso amigo Leandro Reis, montanhista experiente e presidente da Federação de Montanhismo e Escalada de Minas Gerais (FEMEMG), importante entidade que foi criada a fim de fortalecer a comunidade montanhista. Partimos pesados, munidos de muita tralha, equipamentos, comida e disposição para enfrentar os desafios da montanha. Ao todo foram 120 kg de equipos, divididos em quatro mochilas e um “haulbada”, (tambor plástico de fechamento hermético e capacidade de 75 litros usado para içar comida e água pedra acima).

O primeiro dia foi praticamente dedicado à aproximação. Subimos devagar e após 7 horas de caminhada estávamos na base muito cansados, mas felizes… No dia seguinte começamos o trabalho de conquista, enquanto o Leandro voltaria parte da trilha até um ponto estratégico pra buscar parte da carga que havíamos deixado pra trás. Essa baldeação foi planejada e crucial. Começamos conquistando rápido, pois tínhamos uma furadeira à bateria. Esse apetrecho facilita sobremaneira o trabalho, Gastamos menos de 2 minutos para colocação de cada proteção fixa, já sabíamos que essa mordomia acabaria rápido. Acabamos com as cargas das três baterias ainda no terceiro dia, ai o que era 2 minutos passaria para entre 30 e 40 minutos dependendo das condições, quando colocados na “mão”.

Voltamos ao acampamento e no final da tarde estávamos cozinhando nosso prato “casca grossa”. O Leandro fez duas viagens de porteio pra trazer o resto da carga e chegou ao acampamento exausto.

Ainda teríamos que fazer mais um porteio, talvez os três, para buscar água. Felizmente no meio da noite uma forte chuva assolou a montanha. Foi difícil passar a noite, a tempestade nos pegou de surpresa e ficamos parcialmente molhados e com todo aquele frio de inverno nossa noite foi longa. O nosso acampamento era no final de um sistema de canaletas da montanha, base da via “Pedrita meu amor”. Essa via, com 900m de extensão, a mais longa da parede, foi conquistada em estilo alpino. Essa chuva inesperada, mas muito bem vinda acabou por nos brindar com abundante água pura da montanha. Enchemos nossas garrafas e poupamos o esforço do porteio para buscá-la mais abaixo.

No dia seguinte continuamos a conquista, a via continuava exigente e estávamos felizes com isso. Alternamos na ponta da corda e a cada enfiada conquistada fixamos cordas pra subir no dia seguinte o trecho já aberto. Essa estratégia nos permitia descer e dormir na segurança e conforto do acampamento por algumas noites. No entanto, após certa altura esta prática não mais funcionaria. Tínhamos 300m de cordas e quando esticássemos todas deveríamos mudar de acampamento pra ficar em contato mais intimo com a parede. Era a vez do tão sonhado acampamento suspenso, lembrando que aí todas as proteções fixas estavam sendo colocadas na munheca. Para destacar, o Marquinho bateu 17 em dois dias…

No sétimo dia de conquista, os punhos firmes, a cabeça nas alturas e subimos com o haulbada prontos pra dormir na parede. Escalamos confiantes que íamos encontrar um platô para instalar o acampamento suspenso. No final do dia, a luz do Sol nos deixava e o Marquinho que estava na ponta da corda neste momento dá a boa notícia pelo rádio. Havia encontrado um platô no final da sétima enfiada que poderia nos confortar para o ataque final no dia seguinte (muito desconfortavelmente), após ele fixar mais uma proteção e fazer a parada, continuamos o porteio do nosso material, subi animado, ainda vimos que a poucos metros acima, a vegetação sugeria que podia haver ali um patamar ainda mais confortável, mas subir lá no escuro e cansados não era nada atraente. Preferimos ficar ali mesmo, embora não fosse tão confortável quanto esperávamos. Ajeitamo-nos, preparamos um belo jantar espremidos entre algumas Vellozias e sonhamos com o dia seguinte.

Acordei com fortes dores nos dedos, uma unha estava prestes a se soltar e embora fosse a minha vez o Marquinho assumiu a ponta da corda. Decidimos forçar um pouco pra direita a partir dali, pois estávamos debaixo de uma “barriga de rocha” sem agarras, mesmo que a via seguisse uma linha reta natural até então. A idéia de puxar para a direita era pra fugir da exuberante e frágil vegetação rupestre das proximidades do cume. Logo nos primeiros 20 metros da oitava enfiada o Marquinho encontrou as chapeletas da “obra do acaso” e por ela decidimos seguir pro cume. A via estava conquistada. Faltava chegar ao cume, assinar o livro e começar o longo trabalho de descida.

O rapel, (técnica utilizada na descida), foi muito trabalhoso. Tivemos que recolher os 300 metros de cordas fixadas e descer com toda nossa tralha e equipamentos. Muito peso e estávamos desgastados depois de oito dias de muito trabalho contando que a falta de fendas naturais limitou o uso de proteções móveis e a grande quantidade de chapeletas fixadas à rocha demandava tempo e esforço extras.

Durante toda a escalada o som das máquinas minerando o sopé da montanha não deu sossego. Dia e noite, chuva e sol, e os tratores, caminhões e trens trabalhavam para nós, homens, numa busca incansável pelo minério de ferro. Explosões, barulho, um vai e vem interminável dos trens carregados de minério, e dia após dia percebíamos o buraco negro à nossa frente aumentar como um câncer sem tratamento.

O resultado não podia ser diferente. Uma via que já nasceu clássica. Batizamos de “Sociedade Alternativa”. Um alerta contra a ganância incontrolável avistada lá de cima e que ameaça as montanhas de Minas. Enfiadas esportivas e móveis, lances boulderísticos, fendas perfeitas, lances incríveis e exposição moderada fazem dessa uma ótima opção de escalada no Pico do Baiano. São 650m de via em excelente rocha, nessa que é uma das mais promissoras áreas de escalada de longas vias do Brasil. Vale a pena conferir!

Mais dois projetos nos aguardam ainda pra este ano no Baiano… muito trabalho e dedicação … contamos e agradecemos o apoio de todos que acreditam em nossos ideais …

Valeu a todos …

Texto: Gustavo Pietsch Vianna

Fotos: Marcus Vinicius e Gustavo P. Vianna

Patrocínio: Bem Mais Vertical, Escale

Apoios: Loja das Pedras, Escalada Livre, Caverna Tatoo, 4 Climb, Nerea.

Dicas úteis para escalar no Baiano:

  • Procure informações detalhadas sobre a trilha :   A trilha de acesso  a base das vias é de nível pesado , com tempo aproximado entre 3 a 4 horas de caminhada .
  • Busque todas as informações necessárias sobre a via que pretende escalar: As vias variam entre 650 a 750 metros de altura, com graduações e estilos variados , exigindo preparo físico e técnicas de escalada avançadas  e logística.
  • Rapel: A melhor saída do cume é pela via Obra do Acaso, mesmo assim este dura entre 3 a 5 horas ; marcar as paradas com fitas  de plástico facilitam a visualização noturna .
  • Consulte a previsão do tempo: Pois com chuva naquela montanha os riscos aumentam e tudo fica mais difícil.
  • Clima da montanha: Melhor época de escalada vai entre os meses de junho a outubro, que é mais seco, levando em conta que o clima é muito hostil e frio.
  • Vestuário: Roupas apropriadas para frio e chuva são fundamentais.
  • Rádios comunicadores: São muito úteis para uma comunicação mais tranqüila entre os escaladores, e apoio de base caso tenham .
  • Apoio: Deixe sempre pessoas informadas sobre sua presença na montanha, via que pretendem escalar e quando voltam  , celulares  são fundamentais.

IMPORTANTE: Procure conhecer o máximo sobre a Montanha , escale com parceiro de confiança , respeite seus limites , se possível vá a primeira vez com alguém que já tenha escalado lá .

Lembre se ali quem dita as regras é a NATUREZA , siga as …

 

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